quinta-feira, 23 de abril de 2015

ENFERMARIA 6 :: CADERNO 3


A minha "Californiana" saiu no Caderno 3 da Enfermaria 6, ao lado dos textos do Ismar, da Júlia, do Miguel, do Nuno, do Otávio, do Ricardo, do Victor, do Hugo e outr@s mais.
Poderão encontrar a versão impressão do Caderno 3 na Fyodor Books, em Lisboa, ou fazer a vossa encomenda para enfermariaseis@gmail.com. A versão digital ficará disponível a 11 de Maio.



"Diogenes from San Diego"
70 poemas para Adorno, Funchal, Festival Literário da Madeira, 2015.

BILLY COLLINS : THE TROUBLE WITH POETRY: A POEM OF EXPLANATION


The trouble with poetry, I realized
as I walked along a beach one night -- 
cold Florida sand under my bare feet,
a show of stars in the sky --
the trouble with poetry is
that it encourages the writing of more poetry,
more guppies crowding the fish tank,
more baby rabbits
hopping out of their mothers into the dewy grass.
And how will it ever end?
unless the day finally arrives
when we have compared everything in the world
to everything else in the world,
and there is nothing left to do
but quietly close our notebooks
and sit with our hands folded on our desks.
Poetry fills me with joy
and I rise like a feather in the wind.
Poetry fills me with sorrow
and I sink like a chain flung from a bridge.
But mostly poetry fills me
with the urge to write poetry,
to sit in the dark and wait for a little flame
to appear at the tip of my pencil.
And along with that, the longing to steal,
to break into the poems of others
with a flashlight and a ski mask.
And what an unmerry band of thieves we are,
cut-purses, common shoplifters,
I thought to myself
as a cold wave swirled around my feet
and the lighthouse moved its megaphone over the sea,
which is an image I stole directly
from Lawrence Ferlinghetti --
to be perfectly honest for a moment --
the bicycling poet of San Francisco
whose little amusement park of a book
I carried in a side pocket of my uniform
up and down the treacherous halls of high school.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

XII ANNUAL GRADUATE STUDENT CONFERENCE (UNIVERSITY OF CALIFORNIA, LOS ANGELES) / APRIL 2015




Apresento "Uma canção de começos de século: manifestações e tensões em José Miguel Silva" ("Una canción de comienzos de siglo: manifestaciones y tensiones en José Miguel Silva") na UCLA Spanish & Portuguese Conference 2015, organizada pelo Departament of Spanish and Portuguese da University of California, Los Angeles, na próxima sexta-feira. Comigo vai também o Osiris ("Espacialid y corporalidad en un cantar mexicano"). Wish us good luck.
Going to present "Uma canção de começos de século: manifestações e tensões em José Miguel Silva" ("Una canción de comienzos de siglo: manifestaciones y tensiones en José Miguel Silva") at UCLA Spanish & Portuguese Conference 2015, organized by the Department of Spanish and Portuguese in the University of California, Los Angeles, next Friday. Osiris is also going with me to talk about "Espacialid y corporalidad en un cantar mexicano". Wish us good luck.



==================



RITOS

De cada vez que regresso
Ao meu país
depois de uma longa viagem
O primeiro que faço
É perguntar pelos que morreram:
Qualquer homem é um herói
Pelo simples facto de morrer
E os heróis são os nossos mestres.

E em segundo lugar
pelos feridos.

Só depois
não antes de cumprir

Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:

Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção de começos de século.

Ulisses já não mora aqui (2002)
José Miguel Silva © & etc.

terça-feira, 14 de abril de 2015

ABRIL DURAS NO PORTO :: CASA DAS ARTES :: 17.04.15


Amanhã, às 18h, na Casa das Artes, será pela primeira vez projetado o documentário “Abril Duras no Porto” (48'12’'), com realização e montagem de Joana Rodrigues e som de João Rodrigues.
Será também feita a apresentação de duas publicações:
"Marguerite Duras: palavras e imagens da insistência/mots et images de l’insistance", Instituto de Literatura Comparada, Coleção Libretos, 2015, com artigos de Jean Cléder, Arnaud Rykner, David Pinho Barros, Elisabete Marques, Adília Carvalho, Rita Novas Miranda, Mathilde Ferreira Neves,Patrícia Lino, Ana Paula Coutinho, Maria de Fátima Outeirinho, Eduarda Keating e Marie-Manuelle Silva; testemunhos (teatro) de Carlos Pimenta, Nuno Carinhas, Rosa Quiroga, Luís Mestre e de (cinema), Regina Guimarães, além de colaborações artísticas.

"Duras Belas Dizem", Instituto de Literatura Comparada, 2015, com gravuras de Adriana Romero, Bárbara C. Branco, Catarina Real, Carolina Grilo Santos, Joana Gomes, Joana Patrão, Margarida Ramos e textos de Graciela Machado, Ana Paula Coutinho e Joana Matos Frias.
Completar-se-á assim o ciclo «100 anos com Marguerite Duras», desencadeado pelo Projeto “Abril Duras no Porto”, entre Abril e Junho de 2014. Esta iniciativa do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, levada a cabo por Ana Paula Coutinho, David Pinho Barros, Joana Rodrigues e Mathilde Ferreira Neves, envolveu várias parcerias com diferentes agentes e organismos culturais desta cidade, designadamente a Aliança Francesa Porto, o Bairro dos Livros, a Culture Print, a DRCN, o Espaço MIRA, a FLUP, o Institut Français au Portugal, a Mala Voadora, Medeia Filmes, a Reitoria UP e o Teatro Nacional São João.

A entrada é livre.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

MANOEL DE OLIVEIRA (1908-2015)



Adeus Manoel de Oliveira (1908-2015)
Posted by Cahiers Du Cinéma (officiel) on Quinta-feira, 2 de Abril de 2015

PATRÍCIA LINO : MEU MULATO INZONEIRO (O GARIBALDI, BRASIL, MARÇO 2015)


Daniel Santiago, O Brasil é o meu abismo, 1982 


Texto originalmente publicado na revista brasileira O Garibaldi (março 2015)



Pediram-me um ensaio. 

Há três possíveis contextos que circundam o pedido de um ensaio: 1. escrever um ensaio sobre o que quiseres; 2. escrever um ensaio sobre um tema específico – como, por exemplo, quantos centímetros mediam as pontas dos cabelos de Napoleão quando invadiu a Prússia ou, como neste caso, 3. escrever um ensaio sobre um tema que nada tem de específico.

Reformulo: pediram-me um ensaio e disseram-me exatamente assim: 3.1. escrever um ensaio sobre literatura e/ou cultura brasileiras.

Não há como contar as possibilidades dos contextos que circundam o início de um ensaio. O início de um ensaio deve ser como o fim de um ensaio: infinito. Caso não comece nem termine infinito, o ensaio nunca existiu. Começar e terminar infinitamente significa “uma alteração considerável da nossa percepção geral das coisas”. O mesmo que dizer que, caso a nossa percepção das coisas não mude, o ensaio também nunca existiu. Para que a nossa percepção das coisas mude, há que ter percepção da nossa percepção das coisas até ao momento do ensaio.

Eu nunca fui ao Brasil. Nunca fui ao país de João Cabral de Melo Neto e, no entanto, li tudo o que ele escreveu. Nunca me sentei na Lapa para comer um biscoito Globo e, no entanto, recebi de presente a embalagem dos biscoitos Globo; porque nenhuma viagem Brasil/Portugal conservará biscoito algum – nem mesmo os biscoitos Globo. Também acredito não fazer ideia de quantas cores tem o Ver-o-Peso e, no entanto, fiz um amigo que nada no rio Guamá.

Eu não conheço o Brasil e, no entanto, conheço o Brasil. E o início do ensaio passou por, num primeiro momento, eu ter pensado que podia escrever sobre alguns aspetos da poesia de Murilo Mendes, recuperar, durante alguns minutos, Qorpo-Santo ou até mesmo enquadrar Angélica Freitas no contexto da poesia brasileira e, num segundo momento, ter percebido que, depois de muitos possíveis contextos que circundaram vários pedidos de ensaio, o contexto era efetivamente este: eu nunca pisei nem nunca estive perto de pisar chão brasileiro. Nem nada que se pareça. E isto soará o mais trágico possível até que eu lhes conte a parte mais trágica da história — que é não haver parte trágica nenhuma. Enquanto não deito a cabeça no colo do Drummond em Copacabana, porque todo o turista tem direito a fazê-lo, nem como Sururu em Alagoas, há para mim todos os livros que ainda não li. E os que nunca lerei.

Descobri o Brasil aos quinze anos. Não descobri o Brasil aos cinco ou seis. Esse era o Brasil das telenovelas que se veem no sofá. Descobri o Brasil com idade suficiente para apaixonar-me. Então aí namorei vários moços e várias moças: Paulo, Ana C., Glauber, Manuel, Mário, Cecília, Nelson, Elis, Plínio, etc.. No mesmo sofá. Logo depois escolhi uma profissão que me permitisse ficar olhando para tod@s el@s e para outros como el@s. Num sofá. 

Hoje tenho várias relações sérias. Casei-me várias vezes. Espero casar-me outras tantas. Continuo sem ir ao Brasil. 

Ponhamos, então, tudo isto assim: há estimativamente 202768562 habitantes no Brasil, o que implica 202768562 Brasis, porque, no interior da cabeça, nenhum d@s 202768562 habitantes verá o Brasil do mesmo modo. Se eu subtrair 202768562 a 7289165037 – quer dizer, mais ou menos, todos nós no mundo –, fico com 7086396475. Por outras palavras, mais 7086396475 visões diferentes do Brasil? O que é quase tão desleixado como ler a “Canção do Exílio” e dizer: “aqui está um poema bastante representativo do Brasil”. (Entre não exigir consideravelmente de um poema e cair no erro de acreditar que um poeta é bom porque é mais mito que poeta, a solução revela-se simples: não leias. 

Mais do que isso, lê e lê muito, tudo o que possas, o mau, o bom, sem nunca esquecer tudo o que leste. “la?/ ah!/ … sabiá/ …papá/ …maná/ … sofá/ … sinhá// cá?/ bah!”1).

Continuando: é possível ler e escrever sobre o Brasil que nunca se viu, tendo-se visto o Brasil sobre o qual outros leram e escreveram. Por exemplo: nunca vi uma capivara, mas Manoel de Barros ensinou-me a palavra “capivara”, o que é, aqui entre nós, completamente diferente. Depois de ter aprendido sobre capivaras e, em verdade, de tudo um pouco sobre o Pantanal, continuo sem tê-los visitado. No entanto, de palavras se faz um poema e o poema fica entre mim e a capivara. À imagem da capivara ou à definição da capivara, posso encontrá-las em poucos segundos no Google, estão à distância de um click: “A capivara (nome científico: Hydrochoerus hydrochaeris), também chamada de carpincho, capincho, beque, trombudo, caixa, cachapu, porco-capivara, cunum e cubu, é uma espécie de mamífero roedor da família Caviidae e subfamília Hydrochoerinae”. Sei que a imagem bem como a definição crescerão assim que vir uma capivara. Mas nem o Google nem a capivara ela mesma me poderão dar aquilo que o poema me deu. E isto acontecerá com capivaras e o resto. Quero dizer: com tudo o que, ao contrário da capivara, tive o privilégio de ver e tocar até hoje. E o que o poema me deu foi o modo ver ou tocar. Às vezes, enciclopédico. Outras vezes, primigênio (ou a ideia de que se é estupidamente primigênio). Tem dias em que patético (pois não há como andar em busca de Dlendlena, de um volpinveste, da Via Táctea sem parecer zureta). E, ao mesmo tempo, a incerteza de ser enciclopédica, primigênia ou patética; sabendo que o poema permanece intocável, imaginando que o poema é a única coisa intocável no mundo, reconhecendo que o mundo é efetivamente grande, engolindo a custo o café que entretanto arrefeceu, rindo só por quem rira bien qui rira le dernier.

Nunca entrei numa Escola de Samba. O meu pai não me levou a ver o Maracanã quando eu tinha seis anos. Nunca meditei perto do Tietê (sequer molhei lá os pezinhos). Nunca entrei numa favela, nem num terreiro, nem num boteco. Não bebi cerveja às 3 da tarde em Santa Teresa, não sei como é Santa Teresa, nem como corre o rio Iguaçu. Não tenho nacionalidade, nem visto, nem uma razão suficientemente válida para ter um visto. Talvez se lhes disser que quero saber como cheira o Rio de Janeiro, que hei de jogar seus nomes na macumba, talvez se eu pedir alguém em casamento, talvez alguém me peça em casamento; talvez faça uma petição, cometa uma ilegalidade, cante efusivamente Noel num aeroporto, pontapeie por fim a pedra no meio do caminho, talvez eu me zangue de vez e nade da California até à costa do Sauípe – 1 2 3 expira 1 2 3 inspira 123 expira 123 inspira –, talvez eu desista e roube um helicóptero, um paraquedas, um copo de água, um amigo que me dê a mão, o dedo mindinho. E quem diz um helicóptero, diz avião, space shuttle, balão de ar quente, mulher-míssil. Excuse me, sir, I’m here to demand a tenderness visa. Excuse me sir, excuse me sir: prometo oler el cuello del Brasil como usted siente el olor de vuestra mujer. Eu cafungo, tu cafungas, ele/a cafunga, nós cafungamos, vós cafungais, eles/as cafungam. Talvez se eu gritasse, se eu gemesse, se eu tocasse a valsa vienense. Wait a minute. Que valsa vienense, que quê? Só se for mesmo Chiquinha e Pixinguinha. Have you ever noticed, sir, that my language is probably the only one where many words end up with –inha, -inho? For example: small is pequeno, really small is pequenininho – inho, inho, inho. Repeat it 40 times and you’ll have a moinho. Moinho means windmill. Mil, dois mil, três mil: quanto quer por um visto based on matters of the heart? E eu que não tenho moeda, capim, níquel, bago, tostão, erva, metal, cobre, bufunfa, cédula, bagarota, grana, massa, papel, trocado, algum, tutu, o que faço? Que é de mim? Tutu-tutu-tutururu-tutu-tutu-tutururu-ruru, ô abre alas! Let me go, sir, let me go. Talvez eu me afunde aqui, lá, num copinho de cachaça, Lagoa Rodrigo Freitas, quem sabe né, talvez eu vire cachaceira, perrequeira, me diz o quê meu chapa, que estou cansada; que a exaustão é o limite para os que não querem morrer ainda. Talvez eu pegue emprestada uma bicicleta, uma trotinete, um triciclo, um skateboard ou não faça coisa nenhuma. Patavina.

Talvez eu só espere, meu mulato inzoneiro.




1 José Paulo Paes, “Canção do Exílio Facilitada”, Meia Palavra, 1973.

domingo, 2 de novembro de 2014

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

II ENCONTRO PORTUGUÊS DE LITERATURAS IBERO-AMERICANAS :: 6-8 NOVEMBRO 2014


II Encontro Português De Literaturas Ibero-Americanas
NOS 100 ANOS DE ADOLFO BIOY CASARES, JULIO CORTÁZAR, NICANOR PARRA E OCTAVIO PAZ


Faculdade de Letras da Universidade do Porto 
6-8 de Novembro de 2014 

(Programa disponível aqui.)

Organização 
- Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa 
- Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos 
da Universidade Nova de Lisboa 
- Casa da América Latina 



Procurando dar sequência ao I Encontro de Literaturas Ibero-Americanas que teve lugar no Porto em Outubro de 1998, e que reuniu dezenas de escritores e estudiosos dos vários países hispânicos, o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, o Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da Universidade Nova de Lisboa e a Casa da América Latina promovem, nos próximos dias 6 a 8 de Novembro de 2014, um Encontro comemorativo do centenário do nascimento de quatro dos mais impor¬tantes escritores da literatura em língua espanhola do século XX: Adolfo Bioy Casares (n. Buenos Aires, Argentina, 15 de Setembro de 1914), Julio Cortázar (n. Ixelles, Bélgica [Embaixada da Argentina], 26 de Agosto de 1914), Nicanor Parra (n. San Fabián de Alico, Chile, 5 de Setembro de 1914) e Octavio Paz (n. Cidade do México, México, 31 de Março de 1914). Pretende-se que o Encontro proporcione uma reflexão crítica renovada sobre as obras dos quatro ho¬menageados, mas também um debate mais alargado sobre a literatura ibero-americana do século XX, bem como sobre a sua presença e importância na cultura e na literatura em língua portuguesa.  

As línguas de trabalho serão Português, Espanhol, Francês e Inglês. 

CONSTANTINO CAVAFY : ÍTACA



ΙΘΑΚΗΣ

Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,
αν μεν' η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωϊά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους,
να σταματήσεις σ' εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν' αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ' έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά,
σε πόλεις Αιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ' τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί ειν' ο προορισμός σου.
Αλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει
και γέρος πια ν' αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στο δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ'έδωσε τ' ωραίο ταξείδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δε σε γέλασε.
Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες οι Ιθάκες τι σημαίνουν.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης 


ÍTACA

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Cíclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseídon irado - não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Cíclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência, 
Terás compreendido o sentido de Ítaca.

Constantino Cavafy

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

MATERIAIS PARA O FIM DO MUNDO 1 :: ONLINE



Materiais para o Fim do Mundo - 1    Descarregar Libreto

Para estudar o imaginário do fim do mundo, o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa tem organizado, desde 2013, uma série de seminários abertos, coincidindo com os equinócios e os solstícios. Os libretos Materiais para o Fim do Mundo recolhem alguns ensaios apresentados nesses seminários, ou textos afins. Neste primeiro libreto, Luís Quintais estuda a escultura de Rui Chafes “depois da arte” (Arthur Danto), com uma paisagem “gelada” e “comprometida com a morte” em fundo; Patrícia Lino diz como a literatura – ambíguo pharmakon – conduz o leitor ao fim do mundo, de um mundo, do seu mundo; e eu próprio interrogo o imaginário do fim do mundo pelo fogo como castigo e como purificação.

Organizador(es):
Pedro Eiras

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE : O POETA THIAGO DE MELLO EXISTE?

O que é fato e o que é invenção? Há três anos, o escritor Milton Hatoum deu conferência magistral sobre a fronteira porosa entre ficção e realidade na abertura do V Encontro de Letras e Artes em Campos dos Goytacazes (RJ), cujo tema era territórios da memória. Tive a sorte de ouvi-lo, porque os organizadores também me convidaram para falar sobre a história da língua e sua relação com a identidade. Fomos juntos. No caminho, na estrada, relembramos fatos vividos desde 1981, quando nós dois, amazonenses, nos conhecemos – incrível! – em Paris, num jantar na casa do escritor peruano Julio Ramón Ribeyro. 
Mas a história inacreditável que Milton Hatoum narrou para um auditório lotado que se deslumbrou, essa eu não conhecia. Foi assim. Quando ele era professor na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em 1984, foi procurado pelo conhecido jornalista inglês, Bob Misleading, da BBC, que preparava reportagem sobre o cientista britânico Joseph Oversea, assassinado por um índio, em meados do século XIX, nos arredores de Manaus. 
Milton conhecia muito bem relatos de vários naturalistas que viajaram pela Amazônia, mas nunca ouvira falar naquele nome: 
- Joseph Ovearsea? I don't know. 
Bob explicou que o cientista era desconhecido porque era gay e viveu em plena era vitoriana. Por isso, foi censurado pelo puritanismo dominante e condenado ao anonimato. A rainha Vitória, nos 64 anos de seu reinado, manteve-o no ostracismo, apagou-o dos arquivos e até proibiu a publicação do seu livro, onde havia um desenho a bico de pena que retratava uma cachoeira em Manaus. 
- Quero localizar esta cachoeira, que é o túmulo do Oversea, morto, em 1850, com uma flechada que lhe perfurou o coração, atirada por um índio Passé – disse Bob, exibindo para Milton a gravura dentro do livro. Acrescentou que a reportagem que preparava para a BBC era a forma de tornar conhecido o injustiçado cientista. 

A cachoeira 

Não foi tarefa fácil. Hatoum conhece bem Manaus, mas a cidade mudou muito depois de século e meio de história. De lá pra cá, igarapés foram aterrados, rios morreram e viraram esgoto, ruas ocuparam o lugar da floresta, carros substituíram canoas. O escritor convidou o jornalista a percorrer os bairros em busca de cachoeiras. Passaram pela Cachoeirinha na terceira ponte, visitaram o Tarumã, o Mindu, as Pedreiras, observando tudo, até que na subida do bairro de São Jorge, se detiveram na Cachoeira Grande, que serviu ao primeiro sistema de captação de água de Manaus. 
- Foi aqui – gritou Hatoum, animado. 
O jornalista Bob Misleading confirmou, depois de comparar a paisagem que via com a gravura antiga. Fez, então, ali mesmo, várias tomadas para a BBC: shots, takes and the devil at four. À noite, jantaram uma costela de tambaqui no Canto da Peixada. O gringo, que era chegado numa cachaça, emborcou dez caipirinhas. Chegou no hotel catando cavaco. No dia seguinte, voltou pra Londres, Milton foi dar aulas na Universidade e os dois não se falaram mais. 
Cinco anos depois, Milton Hatoum decidiu fazer uma biografia do naturalista assassinado. Entrou em contato com uma amiga que morava em Washington, pedindo que buscasse dados sobre Joseph Ovearsea na Biblioteca do Congresso, que tem tudo o que foi publicado no planeta terra. No entanto, no acervo com 160 milhões de títulos, entre os quais 40 milhões de livros catalogados e 70 milhões de manuscritos em mais de 500 idiomas, nada havia sobre o mencionado cientista. Nem uma vírgula. A férrea censura vitoriana tinha sido eficaz. 
Intrigado, Hatoum viajou a Londres e procurou o jornalista no endereço da BBC, em Portland Place, mas Bob havia sido demitido. Uma secretária chamada Scarlett forneceu o telefone da Bloomberg TV, onde ele agora fazia uns bicos. Marcaram um encontro num pub em Portobello Road, no bairro Notting Hill. Lá, numa taverna hash house, que é o nosso popular dirty foot, Milton falou de seu projeto literário e perguntou onde podia consultar documentos relativos a Oversea. A resposta foi uma gargalhada de Bob, que continuava cachaceiro e já estava na décima dose de dry gim: 
- Milton, eu não te falei? Joseph Oversea foi uma invenção minha, eu criei o personagem e a história. 
- E a imagem da cachoeira? 
- Ah, essa foi uma gravura que retirei do livro A narrative of travels of the Amazon and Rio Negro do botânico Alfred Russel Wallace. 

Caboco Suburucu 

O auditório, hipnotizado, escutava Milton Hatoum, que discorreu sobre a ambiguidade entre o real e o ficcional sempre presente na literatura. Comentou que um texto ficcional não é um relato factual do que aconteceu, mas aquilo que poderia ter acontecido, que explode na consciência e na memória do escritor e toma forma de discurso. Concluiu sua conferência com frase de impacto: 
- Oversea não existia, mas passou a existir depois que Bob o inventou e existe agora, para vocês, neste momento em que acabo de contar sua história. 
 O público aplaudiu efusivamente o conferencista, grato pelo sopro que deu vida a Oversea. Fiquei tão maravilhado, achei tão engenhosa a forma de expor a questão que sai repetindo a história em minhas aulas, nas rodas de conversa e nos mares da vida. Um mês depois, viajo a Brasília e encontro lá Thiago de Mello, para quem faço um resumo da conferência, ainda embriagado de entusiasmo. O poeta me ouve com um sorriso moleque e quando termino diz: 
- O Milton já tinha me contado. Mas ele não te falou que esse jornalista da BBC também não existe? Nunca existiu, nem o cientista, nem o jornalista. Ambos são personagens do Milton Hatoum, essa história nunca aconteceu, é tudo invenção do escritor. 
Fiquei mais maravilhado ainda com esse final e o incorporei à narrativa que costumo fazer em sala de aula. Numa das vezes, uma aluna me perguntou: 
- Professor, e o Thiago de Mello? Ele existe mesmo? 
Com o espírito do Milton Hatoum, respondi que se o Thiago de carne e osso existe, eu não sei e também não importa. Sei que ele é um personagem, uma invenção dos cabocos amazonenses e dos leitores espalhados pelo mundo, incluindo a própria aluna perguntadora, que conhecia "Os Estatutos do Homem" traduzido para mais de 30 idiomas. Thiago de Mello existe porque é lido com prazer e, agora, aos 88 anos, surge como candidato a uma vaga na Academia Brasileira de Letras que nunca abrigou um amazonense e, portanto, não será inteiramente brasileira, enquanto uma de suas cadeiras não for ocupada por um caboco suburucu popa de lancha, bandeira azul. 

P.S. Como o tema se prestava para tal, preenchi com a imaginação as lacunas da memória sobre a conferência, que foi efetivamente dada em outubro de 2011, em Campos. Invoco o testemunho do próprio Milton e da professora de literatura brasileira da Universidade Federal Fluminense, Stefania Chiarelli, presente no carro na viagem para Campos e que também deu uma conferência sobre o seu livro Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum publicado em 2007. O referido é verdade e dou fé.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

PERRY MILLER ADATO : GERTRUDE STEIN : WHEN THIS YOU SEE, REMEMBER ME


BERT JANSCH : NEEDLE OF DEATH

W.B.YEATS : CRAZED GIRL

THAT crazed girl improvising her music.
Her poetry, dancing upon the shore,

Her soul in division from itself
Climbing, falling She knew not where,
Hiding amid the cargo of a steamship,
Her knee-cap broken, that girl I declare
A beautiful lofty thing, or a thing
Heroically lost, heroically found.

No matter what disaster occurred
She stood in desperate music wound,
Wound, wound, and she made in her triumph
Where the bales and the baskets lay
No common intelligible sound
But sang, 'O sea-starved, hungry sea.'




.: :. 

I think the poem was about a girl who had had a very hard life and whose sanity was slipping away. She clang to music and dancing in desperation, using it as a type of fantasy world to get away from her problems. Hope I helped. :)

| Posted on 2014-02-02 | by a guest


.: :. 

I thought it was about the fading of the mind. A lot of Yeats\'s poems focus on the idea of aging and the changing of human perspective. I figured it was about the oblivious delusions of a child who can\'t even see her own pain or comprehend where she is. Then, when she addresses the sea, I thought that she was imagining that the sounds of the ocean was communication to her.

| Posted on 2011-03-10 | by a guest


.: :. 

i Dont understand some of it and wondered if anyone could help me with an analysis or something :)

| Posted on 2009-12-09 | by a guest


.: :. 

I thoughjt that the poem was sad and boring
PS get a life

| Posted on 2009-03-12 | by a guest


.: :. 

the poem was so beautiful it reminded me of my childhood, it reminded me of reading to animals

| Posted on 2009-03-12 | by a guest


.: :. 

this peom is so tuching that when i read it i droped the book and cryed i hope you have the same effect

| Posted on 2009-03-12 | by a guest

terça-feira, 26 de agosto de 2014

JULIO CORTÁZAR : CIRCE


feliz aniversário




And one kiss I had of her mouth, as I took the apple from her hand. 
But while I bit it, my brain whirled and my foot stumbled; 
and I felt my crashing fall through the tangled boughs beneath her feet, 
and saw the dead white faces that welcomed me in the pit.

Dante Gabriel Rossetti, The Orchard-Pit



Porque ya no ha de importarle, pero esa vez le dolió la coincidencia de los chismes entrecortados, la cara servil de Madre Celeste contándole a tía Bebé la incrédula desazón en el gesto de su padre. Primero fue la de la casa de altos, su manera vacuna de girar despacio la cabeza, rumiando las palabras con delicia de bolo vegetal. Y también la chica de la farmacia -“no porque yo lo crea, pero si fuese verdad, ¡qué horrible!”- y hasta don Emilio, siempre discreto como sus lápices y sus libretas de hule. Todos hablaban de Delia Mañara con un resto de pudor, nada seguros de que pudiera ser así, pero en Mario se abría paso a puerta limpia un aire de rabia subiéndole a la cara. Odió de improviso a su familia con un ineficaz estallido de independencia. No los había querido nunca, sólo la sangre y el miedo a estar solo lo ataban a su madre y a los hermanos. Con los vecinos fue directo y brutal; a don Emilio lo puteó de arriba abajo la primera vez que se repitieron los comentarios. A la de la casa de altos le negó el saludo como si eso pudiera afligirla. Y cuando volvía del trabajo entraba ostensiblemente para saludar a los Mañara y acercarse -a veces con caramelos o un libro- a la muchacha que había matado a sus dos novios.

Yo me acuerdo mal de Delia, pero era fina y rubia, demasiado lenta en sus gestos (yo tenía doce años, el tiempo y las cosas son lentas entonces) y usaba vestidos claros con faldas de vuelo libre. Mario creyó un tiempo que la gracia de Delia y sus vestidos apoyaban el odio de la gente. Se lo dijo a Madre Celeste: "La odian porque no es chusma como ustedes, como yo mismo", y ni parpadeó cuando su madre hizo ademán de cruzarle la cara con una toalla. Después de eso fue la ruptura manifiesta; lo dejaban solo, le lavaban la ropa como por favor, los domingos se iban a Palermo o de picnic sin siquiera avisarle. Entonces Mario se acercaba a la ventana de Delia y le tiraba una piedrita. A veces ella salía, a veces la escuchaba reírse adentro, un poco malvadamente y sin darle esperanzas.

Vino la pelea Firpo-Dempsey y en cada casa se lloró y hubo indignaciones brutales, seguidas de una humillada melancolía casi colonial. Los Mañara se mudaron a cuatro cuadras y eso hace mucho en Almagro, de manera que otros vecinos empezaron a tratar a Delia, las familias de Victoria y Castro Barros se olvidaron del caso y Mario siguió viéndola dos veces por semana cuando volvía del banco. Era ya verano y Delia quería salir a veces, iban juntos a las confiterías de Rivadavia o a sentarse en Plaza Once. Mario cumplió diecinueve años, Delia vio llegar sin fiestas -todavía estaba de negro- los veintidós.

Los Mañara encontraban injustificado el luto por un novio, hasta Mario hubiera preferido un dolor sólo por dentro. Era penoso presenciar la sonrisa velada de Delia cuando se ponía el sombrero ante el espejo, tan rubia sobre el luto. Se dejaba adorar vagamente por Mario y los Mañara, se dejaba pasear y comprar cosas, volver con la última luz y recibir los domingos por la tarde. A veces salía sola hasta el antiguo barrio, donde Héctor la había festejado. Madre Celeste la vio pasar una tarde y cerró con ostensible desprecio las persianas. Un gato seguía a Delia, no se sabía si era cariño o dominación, le andaban cerca sin que ella los mirara. Mario notó una vez que un perro se apartaba cuando Delia iba a acariciarlo. Ella lo llamó (era en el Once, de tarde) y el perro vino manso, tal vez contento, hasta sus dedos. La madre decía que Delia había jugado con arañas cuando chiquita. Todos se asombraban, hasta Mario que les tenía poco miedo. Y las mariposas venían a su pelo -Mario vio dos en una sola tarde, en San Isidro-, pero Delia las ahuyentaba con un gesto liviano. Héctor le había regalado un conejo blanco, que murió pronto, antes que Héctor. Pero Héctor se tiró en Puerto Nuevo, un domingo de madrugada. Fue entonces cuando Mario oyó los primeros chismes. La muerte de Rolo Médicis no había interesado a nadie desde que medio mundo se muere de un síncope. Cuando Héctor se suicidó los vecinos vieron demasiadas coincidencias, en Mario renacía la cara servil de Madre Celeste contándole a tía Bebé, la incrédula desazón en el gesto de su padre. Para colmo fractura del cráneo, porque Rolo cayó de una pieza al salir del zaguán de los Mañara, y aunque ya estaba muerto, el golpe brutal contra el escalón fue otro feo detalle. Delia se había quedado adentro, raro que no se despidieran en la misma puerta, pero de todos modos estaba cerca de él y fue la primera en gritar. En cambio Héctor murió solo, en una noche de helada blanca, a las cinco horas de haber salido de casa de Delia como todos los sábados.

Yo me acuerdo mal de Mario, pero dicen que hacía linda pareja con Delia. Aunque ella estaba todavía con el luto por Héctor (nunca se puso luto por Rolo, vaya a saber el capricho), aceptaba la compañía de Mario para pasear por Almagro o ir al cine. Hasta ese entonces Mario se había sentido fuera de Delia, de su vida, hasta de la casa. Era siempre una "visita", y entre nosotros la palabra tiene un sentido exacto y divisorio. Cuando la tomaba del brazo para cruzar la calle, o al subir la escalera de la estación Medrano, miraba a veces su mano apretada contra la seda negra del vestido de Delia. Medía ese blanco sobre negro, esa distancia. Pero Delia se acercaría cuando volviera al gris, a los claros sombreros para el domingo de mañana.

Ahora que los chismes no eran un artificio absoluto, lo miserable para Mario estaba en que anexaban episodios indiferentes para darles un sentido. Mucha gente muere en Buenos Aires de ataques cardíacos o asfixia por inmersión. Muchos conejos languidecen y mueren en las casas, en los patios. Muchos perros rehúyen o aceptan las caricias. Las pocas líneas que Héctor dejó a su madre, los sollozos que la de la casa de altos dijo haber oído en el zaguán de los Mañara la noche en que murió Rolo (pero antes del golpe), el rostro de Delia los primeros días... La gente pone tanta inteligencia en esas cosas, y cómo de tantos nudos agregándose nace al final el trozo de tapiz -Mario vería a veces el tapiz, con asco, con terror, cuando el insomnio entraba en su piecita para ganarle la noche.

“Perdóname mi muerte, es imposible que entiendas, pero perdóname, mamá.” Un papelito arrancado al borde de Crítica, apretado con una piedra al lado del saco que quedó como un mojón para el primer marinero de la madrugada. Hasta esa noche había sido tan feliz, claro que lo habían visto raro las últimas semanas; no raro, mejor distraído, mirando el aire como si viera cosas. Igual que si tratara de escribir algo en el aire, descifrar un enigma. Todos los muchachos del café Rubí estaban de acuerdo. Mientras que Rolo no, le falló el corazón de golpe, Rolo era un muchacho solo y tranquilo, con plata y un Chevrolet doble faetón, de manera que pocos lo habían confrontado en ese tiempo final. En los zaguanes las cosas resuenan tanto, la de la casa de altos sostuvo días y días que el llanto de Rolo había sido como un alarido sofocado, un grito entre las manos que quieren ahogarlo y lo van cortando en pedazos. Y casi enseguida el golpe atroz de la cabeza contra el escalón, la carrera de Delia clamando, el revuelo ya inútil.

Sin darse cuenta, Mario juntaba pedazos de episodios, se descubría urdiendo explicaciones paralelas al ataque de los vecinos. Nunca preguntó a Delia, esperaba vagamente algo de ella. A veces pensaba si Delia sabría exactamente lo que se murmuraba. Hasta los Mañara eran raros, con su manera de aludir a Rolo y a Héctor sin violencia, como si estuviesen de viaje. Delia callaba protegida por ese acuerdo precavido e incondicional. Cuando Mario se agregó, discreto como ellos, los tres cubrieron a Delia con una sombra fina y constante, casi transparente los martes o los jueves, más palpable y solícita de sábado a lunes. Delia recobraba ahora una menuda vivacidad episódica, un día tocó el piano, otra vez jugó al ludo; era más dulce con Mario, lo hacía sentarse cerca de la ventana de la sala y le explicaba proyectos de costura o de bordado. Nunca le decía nada de los postres o los bombones, a Mario le extrañaba, pero lo atribuía a delicadeza, a miedo de aburrirlo. Los Mañara alababan los licores de Delia; una noche quisieron servirle una copita, pero Delia dijo con brusquedad que eran licores para mujeres y que había volcado casi todas las botellas. "A Héctor...", empezó plañidera su madre, y no dijo más por no apenar a Mario. Después se dieron cuenta de que a Mario no lo molestaba la evocación de los novios. No volvieron a hablar de licores hasta que Delia recobró la animación y quiso probar recetas nuevas. Mario se acordaba de esa tarde porque acababan de ascenderlo, y lo primero que hizo fue comprarle bombones a Delia. Los Mañara picoteaban pacientemente la galena del aparatito con teléfonos, y lo hicieron quedarse un rato en el comedor para que escuchara cantar a Rosita Quiroga. Luego él les dijo lo del ascenso, y que le traía bombones a Delia.

-Hiciste mal en comprar eso, pero andá, lleváselos, está en la sala. -Y lo miraron salir y se miraron hasta que Mañara se sacó los teléfonos como si se quitara una corona de laurel, y la señora suspiró desviando los ojos. De pronto los dos parecían desdichados, perdidos. Con un gesto turbio Mañara levantó la palanquita de la galena.

Delia se quedó mirando la caja y no hizo mucho caso de los bombones, pero cuando estaba comiendo el segundo, de menta con una crestita de nuez, le dijo a Mario que sabía hacer bombones. Parecía excusarse por no haberle confiado antes tantas cosas, empezó a describir con agilidad la manera de hacer los bombones, el relleno y los baños de chocolate o moka. Su mejor receta eran unos bombones a la naranja rellenos de licor, con una aguja perforó uno de los que le traía Mario para mostrarle cómo se los manipulaba; Mario veía sus dedos demasiado blancos contra el bombón, mirándola explicar le parecía un cirujano pausando un delicado tiempo quirúrgico. El bombón como una menuda laucha entre los dedos de Delia, una cosa diminuta pero viva que la aguja laceraba. Mario sintió un raro malestar, una dulzura de abominable repugnancia. “Tire ese bombón”, hubiera querido decirle. “Tírelo lejos, no vaya a llevárselo a la boca, porque está vivo, es un ratón vivo.” Después le volvió la alegría del ascenso, oyó a Delia repetir la receta del licor de té, del licor de rosa... Hundió los dedos en la caja y comió dos, tres bombones seguidos. Delia se sonreía como burlándose. Él se imaginaba cosas, y fue temerosamente feliz. “El tercer novio”, pensó raramente. “Decirle así: su tercer novio, pero vivo.”

Ahora ya es más difícil hablar de esto, está mezclado con otras historias que uno agrega a base de olvidos menores, de falsedades mínimas que tejen y tejen por detrás de los recuerdos; parece que él iba más seguido a lo de Mañara, la vuelta a la vida de Delia lo ceñía a sus gustos y a sus caprichos, hasta los Mañara le pidieron con algún recelo que alentara a Delia, y él compraba las sustancias para los licores, los filtros y embudos que ella recibía con una grave satisfacción en la que Mario sospechaba un poco de amor, por lo menos algún olvido de los muertos.

Los domingos se quedaba de sobremesa con los suyos, y Madre Celeste se lo agradecía sin sonreír, pero dándole lo mejor del postre y el café muy caliente. Por fin habían cesado los chismes, al menos no se hablaba de Delia en su presencia. Quién sabe si los bofetones al más chico de los Camiletti o el agrio encresparse frente a Madre Celeste entraban en eso; Mario llegó a creer que habían recapacitado, que absolvían a Delia y hasta la consideraban de nuevo. Nunca habló de su casa en lo de Mañara, ni mencionó a su amiga en las sobremesas del domingo. Empezaba a creer posible esa doble vida a cuatro cuadras una de otra; la esquina de Rivadavia y Castro Barros era el puente necesario y eficaz. Hasta tuvo esperanza de que el futuro acercara las casas, las gentes, sordo al paso incomprensible que sentía -a veces, a solas- como íntimamente ajeno y oscuro.

Otras gentes no iban a ver a los Mañara. Asombraba un poco esa ausencia de parientes o de amigos. Mario no tenía necesidad de inventarse un toque especial de timbre, todos sabían que era él. En diciembre, con un calor húmedo y dulce, Delia logró el licor de naranja concentrado, lo bebieron felices un atardecer de tormenta. Los Mañara no quisieron probarlo, seguros de que les haría mal. Delia no se ofendió, pero estaba como transfigurada mientras Mario sorbía apreciativo el dedalito violáceo lleno de luz naranja, de olor quemante. "Me va a hacer morir de calor, pero está delicioso", dijo una o dos veces. Delia, que hablaba poco cuando estaba contenta, observó: "Lo hice para vos". Los Mañara la miraban como queriendo leerle la receta, la alquimia minuciosa de quince días de trabajo.

A Rolo le habían gustado los licores de Delia, Mario lo supo por unas palabras de Mañara dichas al pasar cuando Delia no estaba: “Ella le hizo muchas bebidas. Pero Rolo tenía miedo por el corazón. El alcohol es malo para el corazón.” Tener un novio tan delicado, Mario comprendía ahora la liberación que asomaba en los gestos, en la manera de tocar el piano de Delia. Estuvo por preguntarle a los Mañara qué le gustaba a Héctor, si también Delia le hacía licores o postres a Héctor. Pensó en los bombones que Delia volvía a ensayar y que se alineaban para secarse en una repisa de la antecocina. Algo le decía a Mario que Delia iba a conseguir cosas maravillosas con los bombones. Después de pedir muchas veces, obtuvo que ella le hiciera probar uno. Ya se iba cuando Delia le trajo una muestra blanca y liviana en un platito de alpaca. Mientras lo saboreaba -algo apenas amargo, con un asomo de menta y nuez moscada mezclándose raramente-, Delia tenía los ojos bajos y el aire modesto. Se negó a aceptar los elogios, no era más que un ensayo y aún estaba lejos de lo que se proponía. Pero a la visita siguiente -también de noche, ya en la sombra de la despedida junto al piano- le permitió probar otro ensayo. Había que cerrar los ojos para adivinar el sabor, y Mario obediente cerró los ojos y adivinó un sabor a mandarina, levísimo, viniendo desde lo más hondo del chocolate. Sus dientes desmenuzaban trocitos crocantes, no alcanzó a sentir su sabor y era sólo la sensación agradable de encontrar un apoyo entre esa pulpa dulce y esquiva.

Delia estaba contenta del resultado, dijo a Mario que su descripción del sabor se acercaba a lo que había esperado. Todavía faltaban ensayos, había cosas sutiles por equilibrar. Los Mañara le dijeron a Mario que Delia no había vuelto a sentarse al piano, que se pasaba las horas preparando los licores, los bombones. No lo decían con reproche, pero tampoco estaban contentos; Mario adivinó que los gastos de Delia los afligían. Entonces pidió a Delia en secreto una lista de las esencias y sustancias necesarias. Ella hizo algo que nunca antes, le pasó los brazos por el cuello y lo besó en la mejilla. Su boca olía despacito a menta. Mario cerró los ojos llevado por la necesidad de sentir el perfume y el sabor desde debajo de los párpados. Y el beso volvió, más duro y quejándose.

No supo si le había devuelto el beso, tal vez se quedó quieto y pasivo, catador de Delia en la penumbra de la sala. Ella tocó el piano, como casi nunca ahora, y le pidió que volviera al otro día. Nunca habían hablado con esa voz, nunca se habían callado así. Los Mañara sospecharon algo, porque vinieron agitando los periódicos y con noticias de un aviador perdido en el Atlántico. Eran días en que muchos aviadores se quedaban a mitad del Atlántico. Alguien encendió la luz y Delia se apartó enojada del piano, a Mario le pareció un instante que su gesto ante la luz tenía algo de la fuga enceguecida del ciempiés, una loca carrera por las paredes. Abría y cerraba las manos, en el vano de la puerta, y después volvió como avergonzada, mirando de reojo a los Mañara; los miraba de reojo y se sonreía.

Sin sorpresa, casi como una confirmación, midió Mario esa noche la fragilidad de la paz de Delia, el peso persistente de la doble muerte. Rolo, vaya y pase; Héctor era ya el desborde, el trizado que desnuda un espejo. De Delia quedaban las manías delicadas, la manipulación de esencias y animales, su contacto con cosas simples y oscuras, la cercanía de las mariposas y los gatos, el aura de su respiración a medias en la muerte. Se prometió una caridad sin límites, una cura de años en habitaciones claras y parques alejados del recuerdo; tal vez sin casarse con Delia, simplemente prolongando este amor tranquilo hasta que ella no viese más una tercera muerte andando a su lado, otro novio, el que sigue para morir.

Creyó que los Mañara iban a alegrarse cuando él empezara a traerle los extractos a Delia; en cambio se enfurruñaron y se replegaron hoscos, sin comentarios, aunque terminaban transando y yéndose, sobre todo cuando venía la hora de las pruebas, siempre en la sala y casi de noche, y había que cerrar los ojos y definir -con cuántas vacilaciones a veces por la sutilidad de la materia- el sabor de un trocito de pulpa nueva, pequeño milagro en el plato de alpaca.

A cambio de esas atenciones, Mario obtenía de Delia una promesa de ir juntos al cine o pasear por Palermo. En los Mañara advertía gratitud y complicidad cada vez que venía a buscarla el sábado de tarde o la mañana del domingo. Como si prefiriesen quedarse solos en la casa para oír radio o jugar a las cartas. Pero también sospechó una repugnancia de Delia a irse de la casa cuando quedaban los viejos. Aunque no estaba triste junto a Mario, las pocas veces que salieron con los Mañara se alegró más, entonces se divertía de veras en la Exposición Rural, quería pastillas y aceptaba juguetes que a la vuelta miraba con fijeza, estudiándolos hasta cansarse. El aire puro le hacía bien, Mario le vio una tez más clara y un andar decidido. Lástima esa vuelta vespertina al laboratorio, el ensimismamiento interminable con la balanza o las tenacillas. Ahora los bombones la absorbían al punto de dejar los licores; ahora pocas veces daba a probar sus hallazgos. A los Mañara nunca; Mario sospechaba sin razones que los Mañara hubieran rehusado probar sabores nuevos; preferían los caramelos comunes y si Delia dejaba una caja sobre la mesa, sin invitarlos pero como invitándolos, ellos escogían las formas simples, las de antes, y hasta cortaban los bombones para examinar el relleno. A Mario lo divertía el sordo descontento de Delia junto al piano, su aire falsamente distraído. Guardaba para él las novedades, a último momento venía de la cocina con el platito de alpaca; una vez se hizo tarde tocando el piano y Delia dejó que la acompañara hasta la cocina para buscar unos bombones nuevos. Cuando encendió la luz, Mario vio el gato dormido en su rincón y las cucarachas que huían por las baldosas. Se acordó de la cocina de su casa, Madre Celeste desparramando polvo amarillo en los zócalos. Aquella noche los bombones tenían gusto a moka y un dejo raramente salado (en lo más lejano del sabor), como si al final del gusto se escondiera una lágrima; era idiota pensar en eso, en el resto de las lágrimas caídas la noche de Rolo en el zaguán.

-El pez de color está tan triste -dijo Delia, mostrándole el bocal con piedritas y falsas vegetaciones. Un pececillo rosa translúcido dormitaba con un acompasado movimiento de la boca. Su ojo frío miraba a Mario como una perla viva. Mario pensó en el ojo salado como una lágrima que resbalaría entre los dientes al mascarlo.
-Hay que renovarle más seguido el agua -propuso.
-Es inútil, está viejo y enfermo. Mañana se va a morir.

A él le sonó el anuncio como un retorno a lo peor, a la Delia atormentada del luto y los primeros tiempos. Todavía tan cerca de aquello, del peldaño y el muelle, con fotos de Héctor apareciendo de golpe entre los pares de medias o las enaguas de verano. Y una flor seca -del velorio de Rolo- sujeta sobre una estampa en la hoja del ropero.

Antes de irse le pidió que se casara con él en el otoño. Delia no dijo nada, se puso a mirar el suelo como si buscara una hormiga en la sala. Nunca habían hablado de eso. Delia parecía querer habituarse y pensar antes de contestarle. Después lo miró brillantemente, irguiéndose de golpe. Estaba hermosa, le temblaba un poco la boca. Hizo un gesto como para abrir una puertecita en el aire, un ademán casi mágico.

-Entonces sos mi novio -dijo-. Qué distinto me parecés, qué cambiado.

Madre Celeste oyó sin hablar la noticia, puso a un lado la plancha y en todo el día no se movió de su cuarto, adonde entraban de a uno los hermanos para salir con caras largas y vasitos de Hesperidina. Mario se fue a ver fútbol y por la noche llevó rosas a Delia. Los Mañara lo esperaban en la sala, lo abrazaron y le dijeron cosas, hubo que destapar una botella de oporto y comer masas. Ahora el tratamiento era íntimo y a la vez más lejano. Perdían la simplicidad de amigos para mirarse con los ojos del pariente, del que lo sabe todo desde la primera infancia. Mario besó a Delia, besó a mamá Mañara y al abrazar fuerte a su futuro suegro hubiera querido decirle que confiaran en él, nuevo soporte del hogar, pero no le venían las palabras. Se notaba que también los Mañara hubieran querido decirle algo y no se animaban. Agitando los periódicos volvieron a su cuarto y Mario se quedó con Delia y el piano, con Delia y la llamada de amor indio.

Una o dos veces, durante esas semanas de noviazgo, estuvo a un paso de citar a papá Mañara fuera de la casa para hablarle de los anónimos. Después lo creyó inútilmente cruel porque nada podía hacerse contra esos miserables que lo hostigaban. El peor vino un sábado a mediodía en un sobre azul, Mario se quedó mirando la fotografía de Héctor enÚltima Hora y los párrafos subrayados con tinta azul. "Sólo una honda desesperación pudo arrastrarlo al suicidio, según declaraciones de los familiares". Pensó raramente que los familiares de Héctor no habían aparecido más por lo de Mañara. Quizá fueron alguna vez en los primeros días. Se acordaba ahora del pez de color, los Mañara habían dicho que era regalo de la madre de Héctor. Pez de color muerto el día anunciado por Delia. Sólo una honda desesperación pudo arrastrarlo. Quemó el sobre, el recorte, hizo un recuento de sospechosos y se propuso franquearse con Delia, salvarla en sí mismo de los hilos de baba, del rezumar intolerable de esos rumores. A los cinco días (no había hablado con Delia ni con los Mañara), vino el segundo. En la cartulina celeste había primero una estrellita (no se sabía por qué) y después: "Yo que usted tendría cuidado con el escalón de la cancel". Del sobre salió un perfume vago a jabón de almendra. Mario pensó si la de la casa de altos usaría jabón de almendra, hasta tuvo el torpe valor de revisar la cómoda de Madre Celeste y de su hermana. También quemó este anónimo, tampoco le dijo nada a Delia. Era en diciembre, con el calor de esos diciembres del veintitantos, ahora iba después de cenar a lo de Delia y hablaban paseándose por el jardincito de atrás o dando vuelta a la manzana. Con el calor comían menos bombones, no que Delia renunciara a sus ensayos, pero traía pocas muestras a la sala, prefería guardarlos en cajas antiguas, protegidos en moldecitos, con un fino césped de papel verde claro por encima. Mario la notó inquieta, como alerta. A veces miraba hacia atrás en las esquinas, y la noche que hizo un gesto de rechazo al llegar al buzón de Medrano y Rivadavia, Mario comprendió que también a ella la estaban torturando desde lejos; que compartían sin decirlo un mismo hostigamiento.

Se encontró con papá Mañara en el Munich de Cangallo y Pueyrredón, lo colmó de cerveza y papas fritas sin arrancarlo de una vigilante modorra, como si desconfiara de la cita. Mario le dijo riendo que no iba a pedirle plata, sin rodeos le habló de los anónimos, la nerviosidad de Delia, el buzón de Medrano y Rivadavia.

-Ya sé que apenas nos casemos se acabarán estas infamias. Pero necesito que ustedes me ayuden, que la protejan. Una cosa así puede hacerle daño. Es tan delicada, tan sensible.
-Vos querés decir que se puede volver loca, ¿no es cierto?
-Bueno, no es eso. Pero si recibe anónimos como yo y se los calla, y eso se va juntando...
-Vos no la conocés a Delia. Los anónimos se los pasa... quiero decir que no le hacen mella. Es más dura de lo que te pensás.
-Pero mire que está como sobresaltada, que algo la trabaja -atinó a decir indefenso Mario.
-No es por eso, sabés. -Bebía su cerveza como para que le tapara la voz. -Antes fue igual, yo la conozco bien.
-¿Antes de qué?
-Antes de que se le murieran, zonzo. Pagá que estoy apurado.

Quiso protestar, pero papá Mañara estaba ya andando hacia la puerta. Le hizo un gesto vago de despedida y se fue para el Once con la cabeza gacha. Mario no se animó a seguirlo, ni siquiera pensar mucho lo que acababa de oír. Ahora estaba otra vez solo como al principio, frente a Madre Celeste, la de la casa de altos y los Mañara. Hasta los Mañara.

Delia sospechaba algo porque lo recibió distinta, casi parlanchina y sonsacadora. Tal vez los Mañara habían hablado del encuentro en el Munich. Mario esperó que tocara el tema para ayudarla a salir de ese silencio, pero ella prefería Rose Marie y un poco de Schumann, los tangos de Pacho con un compás cortado y entrador, hasta que los Mañara llegaron con galletitas y málaga y encendieron todas las luces. Se habló de Pola Negri, de un crimen en Liniers, del eclipse parcial y la descompostura del gato. Delia creía que el gato estaba empachado de pelos y apoyaba un tratamiento de aceite de castor. Los Mañara le daban la razón sin opinar, pero no parecían convencidos. Se acordaron de un veterinario amigo, de unas hojas amargas. Optaban por dejarlo solo en el jardincito, que él mismo eligiera los pastos curativos. Pero Delia dijo que el gato se moriría; tal vez el aceite le prolongara la vida un poco más. Oyeron a un diariero en la esquina y los Mañara corrieron juntos a comprar Última Hora. A una muda consulta de Delia fue Mario a apagar las luces de la sala. Quedó la lámpara en la mesa del rincón, manchando de amarillo viejo la carpeta de bordados futuristas. En torno del piano había una luz velada.
Mario preguntó por la ropa de Delia, si trabajaba en su ajuar, si marzo era mejor que mayo para el casamiento. Esperaba un instante de valor para mencionar los anónimos, un resto de miedo a equivocarse lo detenía cada vez. Delia estaba junto a él en el sofá verde oscuro, su ropa celeste la recortaba débilmente en la penumbra. Una vez que quiso besarla, la sintió contraerse poco a poco.

-Mamá va a volver a despedirse. Esperá que se vayan a la cama...

Afuera se oía a los Mañara, el crujir del diario, su diálogo continuo. No tenían sueño esa noche, las once y media y seguían charlando. Delia volvió al piano, como obstinándose tocaba largos valses criollos con da capo al fine una vez y otra, escalas y adornos un poco cursis, pero que a Mario le encantaban, y siguió en el piano hasta que los Mañara vinieron a decirles buenas noches, y que no se quedaran mucho rato, ahora que él era de la familia tenía que velar más que nunca por Delia y cuidar que no trasnochara. Cuando se fueron, como a disgusto, pero rendidos de sueño, el calor entraba a bocanadas por la puerta del zaguán y la ventana de la sala. Mario quiso un vaso de agua fresca y fue a la cocina, aunque Delia quería servírselo y se molestó un poco. Cuando estuvo de vuelta vio a Delia en la ventana, mirando la calle vacía por donde antes en noches iguales se iban Rolo y Héctor. Algo de luna se acostaba ya en el piso cerca de Delia, en el plato de alpaca que Delia guardaba en la mano como otra pequeña luna. No había querido pedirle a Mario que probara delante de los Mañara, él tenía que comprender cómo la cansaban los reproches de los Mañara, siempre encontraban que era abusar de la bondad de Mario pedirle que probara los nuevos bombones -claro que si no tenía ganas, pero nadie le merecía más confianza, los Mañara eran incapaces de apreciar un sabor distinto. Le ofrecía el bombón como suplicando, pero Mario comprendió el deseo que poblaba su voz, ahora lo abarcaba con una claridad que no venía de la luna, ni siquiera de Delia. Puso el vaso de agua sobre el piano (no había bebido en la cocina) y sostuvo con dos dedos el bombón, con Delia a su lado esperando el veredicto, anhelosa la respiración, como si todo dependiera de eso, sin hablar pero urgiéndolo con el gesto, los ojos crecidos -o era la sombra de la sala-, oscilando apenas el cuerpo al jadear, porque ahora era casi un jadeo cuando Mario acercó el bombón a la boca, iba a morder, bajaba la mano y Delia gemía como si en medio de un placer infinito se sintiera de pronto frustrada. Con la mano libre apretó apenas los flancos del bombón, pero no lo miraba, tenía los ojos en Delia y la cara de yeso, un pierrot repugnante en la penumbra. Los dedos se separaban, dividiendo el bombón. La luna cayó de plano en la masa blanquecina de la cucaracha, el cuerpo desnudo de su revestimiento coriáceo, y alrededor, mezclados con la menta y el mazapán, los trocitos de patas y alas, el polvillo del caparacho triturado.

Cuando le tiró los pedazos a la cara, Delia se tapó los ojos y empezó a sollozar, jadeando en un hipo que la ahogaba, cada vez más agudo el llanto, como la noche de Rolo; entonces los dedos de Mario se cerraron en su garganta como para protegerla de ese horror que le subía del pecho, un borborigmo de lloro y quejido, con risas quebradas por retorcimientos, pero él quería solamente que se callara y apretaba para que solamente se callara; la de la casa de altos estaría ya escuchando con miedo y delicia, de modo que había que callarla a toda costa. A su espalda, desde la cocina donde había encontrado al gato con las astillas clavadas en los ojos, todavía arrastrándose para morir dentro de la casa, oía la respiración de los Mañara levantados, escondiéndose en el comedor para espiarlos, estaba seguro de que los Mañara habían oído y estaban ahí contra la puerta, en la sombra del comedor, oyendo cómo él hacía callar a Delia. Aflojó el apretón y la dejó resbalar hasta el sofá, convulsa y negra, pero viva. Oía jadear a los Mañara, le dieron lástima por tantas cosas, por Delia misma, por dejársela otra vez y viva. Igual que Héctor y Rolo, se iba y se las dejaba. Tuvo mucha lástima de los Mañara, que habían estado ahí agazapados y esperando que él -por fin alguno- hiciera callar a Delia que lloraba, hiciera cesar por fin el llanto de Delia.